sábado, 3 de março de 2012

A Sesta enquanto processo criativo




O Silêncio costuma ser, contíguo ao ruído, um dos grandes alicerces da criação. Tome-se o exemplo de Bethoven na música, ou Gaugin na pintura, que encontrariam no silêncio, essa pausa entre os vários ruídos sociais, o seu mais forte impulsionador criativo. É certo que na aprendizagem, a pausa entre a abordagem inicial e a exploração de novos conceitos, é vital para os fixar e correctamente compreender a ligação entre estes. Funciona um pouco como desfragmentar o nosso disco rígido. Mas será apenas isso? Então e as inúmeras referências feitas por poetas, artistas plásticos, músicos, cientistas, e pensadores no geral, ao silêncio? Tem de existir algo mais, infinitamente poderoso, nesta aparente ausência de pensamento…
No decorrer do desenvolvimento do meu trabalho, tenho vindo a aperceber-me de um mesmo padrão: todas as grandes ideias parecem surgir do aparente nada. Para além desta experiência pessoal, tenho constatado que o mesmo aconteceu e continua a acontecer ao longo dos tempos, com muitos outros artistas. Por que razão isto acontece? Por mais complexa que seja a questão parece-me evidente uma possível resposta: a mente humana trabalha constantemente e, tal como um ataque cardíaco tem maior probabilidade de ocorrer num momento de relaxamento do que num momento de alguma tensão, as ideias surgem fluidas quando a mente se encontra livre e desobstruída. Foi por ter ganho um enorme respeito pelo descanso (esse místico lugar da mente onde tudo se reorganiza de forma surpreendente) que decidi trabalhar acerca do mesmo. Depois de algumas considerações e ensaios, cheguei à conclusão que o mais revelador e concreto, seria trabalhar sobre o meu próprio descanso. Foi desta forma que cheguei às pinturas da série “A Sesta”.
As imagens desta série evocam a leveza e a paz características do sono. Até o mais terrível ser parece pacífico a dormir. Há algo de poético e de enternecedor em alguém que dorme. Porém penso que não esteja apenas relacionado com o facto de o ser humano em geral se sentir fascinado pela vulnerabilidade e doçura do adormecido. O acto de dormir aparece muitas vezes como um encantamento na nossa cultura. Disso são exemplo tanto várias pinturas clássicas assim como outras mais recentes. O exemplo que me parece mais evidente é o conto A Bela Adormecida, criado pelo escritor Charles Perrault, adaptado para balé por Tchaikovsky e, recentemente, para o cinema por Walt Disney. A outra razão que creio conferir tanto fascínio a esta questão é o facto de o observador nunca se observar a ele próprio a dormir. Desta forma cria uma ligação mais forte com o sono de outrem, como se do seu próprio se tratasse.
Em termos plásticos, aquilo que foi imperativo para mim ao realizar estes trabalhos foi o facto de as imagens terem de ser o mais fluidas e simples possível. Foram trabalhadas a óleo sobre uma preparação que acaba por funcionar como parte integrante das pinturas. Está para estes trabalhos como uma folha de papel para um desenho. Dado o facto de a maior parte das pinturas terem sido executadas com pouca tinta, acaba por se misturar com as cores do óleo. A leveza que esta forma de trabalhar, muito próxima do desenho, acabou por conferir aos trabalhos, foi o que mais me agradou na concretização deste projecto. Leve e despreocupado… Assim me parece o sono e assim deveria ser a natureza da mente.



Imagens





A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela








A Sesta
153x160cm
Óleo sobre Tela




A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela





A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela




A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela

1 comentário:

  1. Tão óbvio e tão vago como o sono... Uma elegia à capacidade de transmitir momentos tão belos e serenos como quando nos abandonamos ao repouso e de nada sabemos realmente sobre os caminhos do nosso espírito... Estamos livres porque não temos a consciência de nada e no nada, nada nos atormenta nem ameaça...

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