Pintar é construir. Como qualquer outra forma de arte, a pintura não passa de um veículo de expressão. Quer abordemos um tema pessoal ou outro menos intimo, como por exemplo uma crítica política ou uma reflexão sobre a arte em si, tudo o que construímos reflecte-nos a nós. No caso do meu trabalho aquilo que vou fazendo está constantemente a abrir-me portas para novas realidades pictóricas e novos conteúdos. Desta forma, a pintura funciona como uma espécie de motor que potência as minhas ideias e estimula a minha percepção do mundo. Com ela acontecem uma série de imprevistos, acidentes e surpresas que me fazem parar o processo e repetir. É importante para mim que o lado inconsciente aconteça, e é depois que racionalizo sobre o que tenho à frente.
O nosso inconsciente está mais próximo do que somos na realidade. Longe de todas as construções que a sociedade nos impôs. É por isso que, para mim, pintar é um acto de meditação, de comunhão comigo mesmo. É uma forma de chegar à raiz das coisas. No entanto a arte que quero fazer é assumidamente de cariz social. Há dois tipos de arte contemporânea. Uma em que o artista se questiona sobre a arte em si e outra em que o foco é o mundo que nos rodeia. A mim interessa-me muito mais o segundo tipo. Sempre me preocupei com questões sociais e humanas do ponto de vista do indivíduo. Talvez por isso a pintura me permita uma ligação mais orgânica com as peças que produzo e é ai que entra a tal meditação de que falava há pouco. Funciona como um veículo que me aproxima do “eu” real. Que me deixa mais próximo da criança de cinco anos que está dentro de mim. É qualquer coisa para além do conceito questionado ou a forma criativa como é abordado. Com isto não quero dizer, evidentemente, que as ideias e as coisas que se pintam não interessam. A arte tem sempre um discurso inerente e é esse discurso o agente comunicador. Porem acredito que se houver uma consciência forte e um objectivo interessante, tudo o que se pintar vai fazer todo o sentido e ter todo o interesse. A forma é também um agente comunicador, mas talvez o menos importante. É por essa razão que a pintura a que me refiro nasce evidentemente com a maturidade do artista, ainda que muitas vezes possa ser uma consciência do inconsciente.
Quanto ao meu trabalho sei que ainda somos as peças estruturais do lego que estamos a montar. Eu e a pintura. Porém peça a peça vamos crescendo e ao mesmo tempo aproximando-nos do cerne, bombeando cada vez mais a nossa desconstrução, que nos leva a pintar e a construir…
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