O Silêncio costuma ser, contíguo ao
ruído, um dos grandes alicerces da criação. Tome-se o exemplo de Bethoven na
música, ou Gaugin na pintura, que encontrariam no silêncio, essa pausa entre os
vários ruídos sociais, o seu mais forte impulsionador criativo. É certo que na
aprendizagem, a pausa entre a abordagem inicial e a exploração de novos
conceitos, é vital para os fixar e correctamente compreender a ligação entre
estes. Funciona um pouco como desfragmentar o nosso disco rígido. Mas será
apenas isso? Então e as inúmeras referências feitas por poetas, artistas
plásticos, músicos, cientistas, e pensadores no geral, ao silêncio? Tem de
existir algo mais, infinitamente poderoso, nesta aparente ausência de
pensamento…
No decorrer do desenvolvimento do meu
trabalho, tenho vindo a aperceber-me de um mesmo padrão: todas as grandes
ideias parecem surgir do aparente nada. Para além desta experiência pessoal,
tenho constatado que o mesmo aconteceu e continua a acontecer ao longo dos
tempos, com muitos outros artistas. Por que razão isto acontece? Por mais
complexa que seja a questão parece-me evidente uma possível resposta: a mente
humana trabalha constantemente e, tal como um ataque cardíaco tem maior
probabilidade de ocorrer num momento de relaxamento do que num momento de
alguma tensão, as ideias surgem fluidas quando a mente se encontra livre e
desobstruída. Foi por ter ganho um enorme respeito pelo descanso (esse místico
lugar da mente onde tudo se reorganiza de forma surpreendente) que decidi trabalhar
acerca do mesmo. Depois de algumas considerações e ensaios, cheguei à conclusão
que o mais revelador e concreto, seria trabalhar sobre o meu próprio descanso.
Foi desta forma que cheguei às pinturas da série “A Sesta”.
As imagens desta série evocam a
leveza e a paz características do sono. Até o mais terrível ser parece pacífico
a dormir. Há algo de poético e de enternecedor em alguém que dorme. Porém penso
que não esteja apenas relacionado com o facto de o ser humano em geral se
sentir fascinado pela vulnerabilidade e doçura do adormecido. O acto de dormir
aparece muitas vezes como um encantamento na nossa cultura. Disso são exemplo
tanto várias pinturas clássicas assim como outras mais recentes. O exemplo que
me parece mais evidente é o conto A Bela
Adormecida, criado pelo escritor Charles Perrault, adaptado para balé por
Tchaikovsky e, recentemente, para o cinema por Walt Disney. A outra razão que
creio conferir tanto fascínio a esta questão é o facto de o observador nunca se
observar a ele próprio a dormir. Desta forma cria uma ligação mais forte com o
sono de outrem, como se do seu próprio se tratasse.
Em termos plásticos, aquilo que foi
imperativo para mim ao realizar estes trabalhos foi o facto de as imagens terem
de ser o mais fluidas e simples possível. Foram trabalhadas a óleo sobre uma
preparação que acaba por funcionar como parte integrante das pinturas. Está
para estes trabalhos como uma folha de papel para um desenho. Dado o facto de a
maior parte das pinturas terem sido executadas com pouca tinta, acaba por se
misturar com as cores do óleo. A leveza que esta forma de trabalhar, muito
próxima do desenho, acabou por conferir aos trabalhos, foi o que mais me
agradou na concretização deste projecto. Leve e despreocupado… Assim me parece
o sono e assim deveria ser a natureza da mente.
A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela
A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela
A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela