sábado, 3 de março de 2012

Mulheres Árabes

Um amigo meu um dia disse-me, depois de ter escrito grande parte da tese de mestrado no Senegal, que "faz falta a muita gente sair da Europa ou do norte da América por pelo menos dois ou três meses"... Eu não podia concordar mais com esta afirmação! Existe um magnifico mundo para além das nossas muralhas de cultura e capitalismo, para além dos nossos museus e palácios, para além da nossa arquitectura e justiça social, para além do nosso ditar e indiferença. Um mundo onde o tempo não tem a mesma velocidade, onde as pessoas são mais próximas da vida e menos de conceitos abstractos ou formas artificiais de entretenimento. Este é um mundo vastíssimo cheio de diferentes pequenos mundos imperfeitos. Cada qual com os seus dramas humanos e problemáticas sociais. Mas todos muito menos artificiais que o nosso. Acredito sinceramente que podemos aprender imenso com uma viagem fora da nossa zona de conforto. 
Estas pessoas tão despidas de capas e maquilhagem resultam em algumas das mais incríveis, chocantes, únicas e belíssimas imagens fotográficas. Há qualquer coisa de magnético que nos liga a estes seres humanos tão transparentes, tão reais, tão autênticos! É por isso que durante a faculdade fiz os seguintes desenhos sobre mulheres árabes. Recentemente voltei-me de novo para este tema e decidi dar inicio a uma série de retratos de pessoas de diferentes zonas do planeta, dos quais falarei num seguinte post.































































O músico

Um dia conheci um músico que me inspirou verdadeiramente. Um homem simples, pragmático e extremamente inteligente. Tocava trompete como instrumento principal. O som deste trompete era diferente dos outros que tinha ouvido antes. Desde Miles Davis a Dizzy Gillespie, já tinha ouvido muitos trompetes com diferentes variações de timbre, mas este era especial. Chamou-me atenção para o fluxo temporal constante que é a vida e para o facto de a capacidade de decisão ser uma das mais impressionantes e importantes características a desenvolver para se conseguir construir qualquer coisa de interesse. Decidir e não parar na dúvida! É impossível parar cinco segundos para pensar que frase musical usar a seguir durante um concerto de Jazz. O esclarecimento tem de ser imediato! O músico tem de estar em sintonia com o instrumento e avançar. Arriscar o improviso podendo o resultado ser perfeito ou não. Só assim pode nascer algo de novo. Algo inesperado, por vezes genial. 
A seguinte série de pinturas é feita com um tempo de resposta extremamente curto ente pinceladas, escolha de cores ou qualquer outra variação possível. É usada uma grande quantidade de tinta que ao mesmo tempo que torna o acto de pintar mais sensorial, também o torna mais fluido. São pinturas feitas de improviso, emoções fortes e gestos largos como os de um trio de Jazz num concerto...







O músico
100x120cm
Óleo sobre Tela





O músico
80x120cm
Óleo sobre Tela





O músico
120x100cm
Óleo sobre Tela





O músico
100x120cm
Óleo sobre Tela





O músico
100x120cm
Óleo sobre Tela





O músico
100x120cm
Óleo sobre Tela





A Sesta enquanto processo criativo




O Silêncio costuma ser, contíguo ao ruído, um dos grandes alicerces da criação. Tome-se o exemplo de Bethoven na música, ou Gaugin na pintura, que encontrariam no silêncio, essa pausa entre os vários ruídos sociais, o seu mais forte impulsionador criativo. É certo que na aprendizagem, a pausa entre a abordagem inicial e a exploração de novos conceitos, é vital para os fixar e correctamente compreender a ligação entre estes. Funciona um pouco como desfragmentar o nosso disco rígido. Mas será apenas isso? Então e as inúmeras referências feitas por poetas, artistas plásticos, músicos, cientistas, e pensadores no geral, ao silêncio? Tem de existir algo mais, infinitamente poderoso, nesta aparente ausência de pensamento…
No decorrer do desenvolvimento do meu trabalho, tenho vindo a aperceber-me de um mesmo padrão: todas as grandes ideias parecem surgir do aparente nada. Para além desta experiência pessoal, tenho constatado que o mesmo aconteceu e continua a acontecer ao longo dos tempos, com muitos outros artistas. Por que razão isto acontece? Por mais complexa que seja a questão parece-me evidente uma possível resposta: a mente humana trabalha constantemente e, tal como um ataque cardíaco tem maior probabilidade de ocorrer num momento de relaxamento do que num momento de alguma tensão, as ideias surgem fluidas quando a mente se encontra livre e desobstruída. Foi por ter ganho um enorme respeito pelo descanso (esse místico lugar da mente onde tudo se reorganiza de forma surpreendente) que decidi trabalhar acerca do mesmo. Depois de algumas considerações e ensaios, cheguei à conclusão que o mais revelador e concreto, seria trabalhar sobre o meu próprio descanso. Foi desta forma que cheguei às pinturas da série “A Sesta”.
As imagens desta série evocam a leveza e a paz características do sono. Até o mais terrível ser parece pacífico a dormir. Há algo de poético e de enternecedor em alguém que dorme. Porém penso que não esteja apenas relacionado com o facto de o ser humano em geral se sentir fascinado pela vulnerabilidade e doçura do adormecido. O acto de dormir aparece muitas vezes como um encantamento na nossa cultura. Disso são exemplo tanto várias pinturas clássicas assim como outras mais recentes. O exemplo que me parece mais evidente é o conto A Bela Adormecida, criado pelo escritor Charles Perrault, adaptado para balé por Tchaikovsky e, recentemente, para o cinema por Walt Disney. A outra razão que creio conferir tanto fascínio a esta questão é o facto de o observador nunca se observar a ele próprio a dormir. Desta forma cria uma ligação mais forte com o sono de outrem, como se do seu próprio se tratasse.
Em termos plásticos, aquilo que foi imperativo para mim ao realizar estes trabalhos foi o facto de as imagens terem de ser o mais fluidas e simples possível. Foram trabalhadas a óleo sobre uma preparação que acaba por funcionar como parte integrante das pinturas. Está para estes trabalhos como uma folha de papel para um desenho. Dado o facto de a maior parte das pinturas terem sido executadas com pouca tinta, acaba por se misturar com as cores do óleo. A leveza que esta forma de trabalhar, muito próxima do desenho, acabou por conferir aos trabalhos, foi o que mais me agradou na concretização deste projecto. Leve e despreocupado… Assim me parece o sono e assim deveria ser a natureza da mente.



Imagens





A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela






A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela








A Sesta
153x160cm
Óleo sobre Tela




A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela





A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela




A Sesta
160x153cm
Óleo sobre Tela

Pintar é construir

Pintar é construir. Como qualquer outra forma de arte, a pintura não passa de um veículo de expressão. Quer abordemos um tema pessoal ou outro menos intimo, como por exemplo uma crítica política ou uma reflexão sobre a arte em si, tudo o que construímos reflecte-nos a nós. No caso do meu trabalho aquilo que vou fazendo está constantemente a abrir-me portas para novas realidades pictóricas e novos conteúdos. Desta forma, a pintura funciona como uma espécie de motor que potência as minhas ideias e estimula a minha percepção do mundo. Com ela acontecem uma série de imprevistos, acidentes e surpresas que me fazem parar o processo e repetir. É importante para mim que o lado inconsciente aconteça, e é depois que racionalizo sobre o que tenho à frente.
O nosso inconsciente está mais próximo do que somos na realidade. Longe de todas as construções que a sociedade nos impôs. É por isso que, para mim, pintar é um acto de meditação, de comunhão comigo mesmo. É uma forma de chegar à raiz das coisas. No entanto a arte que quero fazer é assumidamente de cariz social. Há dois tipos de arte contemporânea. Uma em que o artista se questiona sobre a arte em si e outra em que o foco é o mundo que nos rodeia. A mim interessa-me muito mais o segundo tipo. Sempre me preocupei com questões sociais e humanas do ponto de vista do indivíduo. Talvez por isso a pintura me permita uma ligação mais orgânica com as peças que produzo e é ai que entra a tal meditação de que falava há pouco. Funciona como um veículo que me aproxima do “eu” real. Que me deixa mais próximo da criança de cinco anos que está dentro de mim. É qualquer coisa para além do conceito questionado ou a forma criativa como é abordado. Com isto não quero dizer, evidentemente, que as ideias e as coisas que se pintam não interessam. A arte tem sempre um discurso inerente e é esse discurso o agente comunicador. Porem acredito que se houver uma consciência forte e um objectivo interessante, tudo o que se pintar vai fazer todo o sentido e ter todo o interesse. A forma é também um agente comunicador, mas talvez o menos importante. É por essa razão que a pintura a que me refiro nasce evidentemente com a maturidade do artista, ainda que muitas vezes possa ser uma consciência do inconsciente.
Quanto ao meu trabalho sei que ainda somos as peças estruturais do lego que estamos a montar. Eu e a pintura. Porém peça a peça vamos crescendo e ao mesmo tempo aproximando-nos do cerne, bombeando cada vez mais a nossa desconstrução, que nos leva a pintar e a construir…